Inteira

foto: @amandagabriielle


Houve um tempo onde eu tinha pavor de ficar sozinha. A minha própria presença não me bastava de jeito nenhum, eu evitava ao máximo ficar sozinha, ir á lugares sozinha, e até aceitava relacionamentos mínimos por medo de ficar só. Acho que todo mundo passa um pouco por essa fase antes de se conhecer de verdade, né ? Ainda vejo muitas pessoas passando por essa fase, mas fazendo dela uma situação permanente, numa infinitude, sem conseguir se encontrar, e aceitando tão pouco, tão menos, tão nada perto do valor que a sua presença carrega. Quantas histórias horríveis atualmente de mulheres que permanecem com pessoas ruins por achar que não merecem mais do que aquilo. A gente sempre vale e merece mais ! O pouco não é uma alternativa.

Um dia aconteceu.
Eu me encontrei, me descobri, e entendi que não tinha nada tão gostoso, tão criativo, tão interessante como a minha própria companhia. Eu descobri a liberdade de ser quem eu sou, com tudo o que eu carrego em mim. Eu descobri mais sobre os meus medos, sobre as minhas vontades, sobre as minhas escolhas e os meus porquês. Essa foi a chave para eu entender mais sobre mim, e querer ficar e ser completamente com quem eu sou. Toda essa história de aceitação que a gente já conhece, mas que cada um vive de uma forma tão particular, tão intima, e só se conhecendo muito bem a gente consegue determinar o que entra, o que permanece e o que sai da nossa vida, dos nossos hábitos, da nossa forma de pensar, lidar e reagir.

Eu entendi que, eu, sozinha, não era metade nenhuma. Eu entendi que eu sou completa, inteira, e que viver dependendo emocionalmente apenas da minha própria pessoa é incrível. Isso não me priva de encontrar pessoas, conhecer, estar e gostar de estar com outras pessoas, mas isso faz com que, ainda que todas essas pessoas não estejam, eu vou estar, e eu vou bastar para mim. Isso também não me anula de criar expectativas, (até porque eu sempre fui a rainha das expectativas), mas faz com que ainda que um pouco decepcionada ou chateada, eu nunca fique surpresa. Eu sempre espero das pessoas todas as reações, todos os lados, todas as circunstâncias. Por me conhecer tão bem, eu também conheço praticamente todas as possibilidades das outras personalidades. 

A maior mudança de tudo isso é que a gente passa a não aceitar mais poucas coisas. Eu não aceito e nem me contento mais com meias presenças, meias intenções, meias vontades, meios sentimentos, a metade passou à ser muito pouco, e como eu já falei, o pouco não é mais uma opção.
Minha famosa mania de colocar intensidade em tudo. Eu nunca soube ser meio termo em nada. Sempre sou muito. Sempre transbordo. A intensidade nunca bateu na porta antes de entrar, ela sempre me invade, e eu também nunca consegui impedi-lá de ficar. Sempre foi 8 ou 80. Muito ou nada. Em tudo, e para tudo. Isso nem sempre é bom, mas é uma característica minha que eu abracei e entendi.

E agora esse é o foco da minha intensidade. 
Sou inteira, não sou metade de nada, nem de ninguém, e também não quero quem seja, se for pra querer algo, eu quero só o que é inteiro, quero que transborde, quero que me surpreenda positivamente e me mostre mais do que eu já vi, não deve ser impossível. 
E ainda assim, quero a minha liberdade.
Quero continuar sendo livre pra ser quem eu sou, livre com o meu espaço, livre pra dividir o que eu quiser, e livre pra ir quando eu quiser. Talvez isso soe um pouco egoísta, mas é que eu tô vivendo um relacionamento muito sério comigo agora, sabe ? Um relacionamento que eu demorei muito pra conseguir cultivar, e agora que eu tenho, eu não consigo deixar de lado. Não consigo me prender á nenhuma situação que me prive da sensação única, da dor e da delícia de ser exatamente quem eu sou agora. 
Ser assim tem seus problemas, principalmente aos olhos das outras pessoas, mas aos meus, sinceramente, são mais vantagens. Eu me machuco menos, eu me engano menos, eu espero menos, e eu vivo mais e plenamente. Eu me entendo. Eu me bagunço mas eu me resolvo. Eu faço. Eu escolho. Eu me contento. 

Isso tudo faz parte de mim. Mas o mais importante desse texto é que todas nós precisamos parar de achar que somos metade de algo. Precisamos parar de nos submeter á pessoas ruins por achar que precisamos estar sempre com alguém. Precisamos parar de achar que somos pouco, de nos limitar, de deixar que nos definam e rotulem, de deixar que tentem comandar nossos sentimentos, nossa escolha de ficar ou ir. Quando a gente se conhece, reconhece o nosso valor, o nosso tamanho, a nossa dimensão, o prazer de ser quem somos com tudo o que somos, não permanecemos onde não há estrutura para todo o nosso ser, todo o nosso "eu", toda a nossa essência. Não permaneça onde você não pode ser você. E não aceite ser meio termo ou metade de algo. O mundo tem medo de mulheres assim, porque sabe até onde podemos ir, mas não deixe que te diminuam pela incapacidade de te compreender. Perceba quão f@da é a sua própria pessoa e presença.

Eu sou assim, inteira.
E se você quiser ficar, saiba compreender, e acima de tudo, venha para transbordar, não para completar, muito menos para bagunçar o que eu demorei para arrumar aqui.

Nenhum comentário

Postar um comentário